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Auteur Sujet: A Virgem Maria entrou em burnout  (Lu 620 fois)

Hors ligne sindu5673

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A Virgem Maria entrou em burnout
« le: 06 septembre 2022 à 01:44:34 »
      Desde 1917, Maria aceitava pedidos. No início, não iam além das redondezas do conselho de Fátima. Mas a reputação dos seus serviços foi correndo de boca em boca, e num abrir e fechar de pestana, os pedidos já não cabiam dentro de Portugal. Tanta era a fé nos milagres marianos, que acabaram por erguer-lhe um santuário. O que movia os peregrinos desde os quatro cantos do mundo até ao santuário não era tanto a devoção ao culto mariano. Viam aquele lugar como uma sucursal da oficina do Pai Natal, ou da lâmpada do Aladim, mas que se tornava num Tarrafal para as almas carenciadas. Sempre que quisessem alguma coisa que custasse obter, os fiéis deslocavam-se à Fátima para pedir a Maria. Pediam-lhe para curar doentes oncológicos, tísicos, coxos, mancos, manetas, tuberculosos, sifilíticos, cornos, desgostos amorosos, acabar com guerras, passar nos exames, ganhar campeonatos, encontrar uma parceira, e os números do jackpot da lotaria.
     No próprio local ou à distância, as orações recheadas com pedidos de graças nunca paravam de chegar aos ouvidos de Maria. Ela, coitada, tentava prestar atenção a tudo quanto lhe era dirigido. Porém, Nossa Senhora de Fátima como de outra localidade, só possuía um par de ouvidos, o que não chegava para dar atenção a tanto desespero. Por isso, quase todos os pedidos ficavam sem resposta. Mas isso não fazia os pedidos parar de chegar.
   Depois de muitos pedidos recebidos, e de algumas graças concedidas, Maria ficou exausta. Lá no céu, ela levava às mãos ao véu: “meu Deus Como posso atender tanta miséria, tanto sofrimento, tanta desgraça, tanta impaciência? Já não posso mais, estou cansada. Não me sobra nem mais  uma ponta de misericórdia para dar.” Nossa Senhora de Fátima tinha entrado em burnout, já não se sentia capaz de assumir a sua divina missão.
      Era num dia 13 de maio como já tinha havido muitos outros nos anos de vida que contava o santuário. O local estava repleto de peregrinos chorosos e sentidos. Todos vinham requerer alguma coisa de difícil alcance. Uns ficavam-se pelas rezas meio caladas, enquanto outros, que talvez com pedidos de alta cilindrada, pagavam com a pele dos joelhos deixados no asfalto o preço do sinal a Nossa Senhora. Ouviam-se aleluias e ave marias nas colunas cantadas pelo padre. O ambiente era pesado como um funeral de uma tia-avó com quem ninguém se lembrava ter privado.
    No cimo da torre da basílica, acendeu-se uma luz com clareza que chegava para iluminar um buraco negro. Era Maria em Fátima. Mais branca, imaculada e fria do que um manto de neve acabado de cair. Houve logo o dobro de gritos e desmaios do que num concerto dos Beatles. Houve desconfiança que aquilo era uma armadilha destinada a alimentar algum programa dos apanhados. Mas não era. As idosas provincianas batiam no peito com o punho, vergonhosas de sua fé  em estado vegetativo. Era preciso fazer penitência para, quem sabe, ganhar as boas graças da senhora. Produziam sem o signo da cruz dividido entre a testa, peito e ombros em excesso de zelo e velocidade. Aqueles que estavam mais interessados em receber likes do que graças puxaram logo pelo iPhone para carregar no botão vermelho virtual.
     A claridade da luz não deixava descortinar a boca de Maria. Mas que ela falava, falava. E todos conseguiam ouvir. A provavelmente ainda virgem Maria dirigia-se ao seu povo com uma voz de operadora de call center, enquanto as pestanas sempre dispensavam bater para deixar aparecer um olhar cadavérico. “Meus filhos, prestem-me a vossa inteira atenção. Volto hoje onde já não voltava há mais de cem anos para dar-vos uma notícia importante. Não venho aqui perante vocês todos para anunciar a vinda do messias, nem o fim dos tempos”. Sem atenuar a luz da sua aparição, bater uma pálpebra, nem parar para retomar a respiração, Maria prosseguiu o seu monólogo. “Durante anos, fiz todos os esforços para ouvir as vossas orações, e para prestar atenção a todos os vossos pedidos. Nem queiram saber as coisas que eu ouvi durante esses anos todos. Fartei-me de rir e de tédio. Mas sempre tentei ouvir tudo, como a misericórdia manda. São-me feitas muitas promessas, mas quase nunca consigo cumprir, como já devem ter reparado. Porém, lembrem-se que eu não faço milagres. Eu não sou Deus, nem deusa. Muito menos o Pai Natal. Os meus ouvidos simplesmente não chegam para tantas encomendas de curas, amor correspondidos, passagens para o purgatório e outras graças. Por isso, meus filhos, a contar deste instante vou entrar num período em que não vou atender mais pedidos. Não vale a pena dirigir-me promessas porque elas não serão ouvidas por um tempo indeterminado. Depois de milhões de pedidos ouvidos e atendidos, não estou cansada, estou exausta. Imaginem o que esse volume representa. As minhas desculpas pelo incômodo, meus filhos”.
      As ave-marias foram abalroadas por gritos de pavor. As mãos unidas junto ao peito caíam de desalento, e deixavam tombar os terços dedicados a Nossa Senhora de Fátima no chão de cimento do santuário. Uma crente menos atrapalhada do que os outros decidia falar.
– Mãe celeste, o meu filho está muito doente. Por favor, ajude a encontrar a saúde.
– Minha filha. Não sou Celeste, sou Maria. procura a saúde para o seu filho, é louvável. Não precisa de milagre nenhum. Precisa consultar um médico. Respondeu Maria, autoritária como um professor catedrático a disciplinar um pupilo displicente com os TPC. Outro peregrino dirigiu-se a Maria:
– Nossa Senhora, sou pobre e os meus filhos choram por pão. Preciso que me mande dinheiro para me salvar.
– Meu filho, respondeu a Virgem, peça a si mesmo o milagre que pretende. Se Deus criou fartura de comida até para os passarinhos, quanto mais para os seus filhos. Só precisa importar-se com colher os frutos. Se quiser bens materiais, então trabalhe, estude. Seja poupado com o dinheiro e os vícios, e invista no esforço, na moderação. A prosperidade irá aparecer como os frutos da árvore chegam para sustentar quem a semeou e a cuidou com paciência e dedicação, falou Maria.
Mal tinha acabado de dizer as suas palavras que outro peregrino se atirava à Virgem aparecida.
 – Minha Nossa Senhora, o meu amor deixou-me com o coração feito num campo de batalha. Sinto a dor de mil facadas a cada instante desde que ele partiu. Por favor, mãe de Deus, tenha piedade do meu sofrimento. Faça com que ele volte para mim, e que para mim haja amor no coração dele.
   O tom de voz e as palavras da rapariga competiam entre si para inspirar maior ternura. Sem se mexer, e num tom de voz mais enfadonho do que as vozes da inteligência artificial, Maria começou:
– Minha filha, o que tu pedes não está ao alcance de Deus, mas sim do diabo. Um milagre é uma ação do bem, não do mal. Embastilhar o coração desse rapaz na tua vontade seria injusto. Padecer de amor não correspondido é doloroso, minha filha. Mas tem cura. O amor novo e forte nasce nas cinzas do precedente. Vai, moça, abraça a vida e cura o desamor com um novo amor.
 – Meus filhos, disse Maria dirigindo-se à multidão, o meu tempo convosco chegou ao fim. Vou embora e não sei quando voltarei. Não fiquem desesperados. Vocês não precisam de milagres nem de Deus, nem de Jesus, nem de Maria. Possuem nas suas mentes os ingredientes necessários para fazer todos os milagres de que vocês precisam. É tudo. Despeço-me de vocês. A Deus. 

 


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